A farsa
A gente se envolve em encantos que nem são os nossos. Como se quiséssemos
ser um ponto parado, sem sequer se preocupar com movimentos. Não se importar em
ser trágico e divertido ao mesmo tempo... pff...como se isso fosse fácil e não
exigisse horas de encenação no espelho. Como um pesado teatro de marionetes,
sem público ou venda de ingressos. Como se ninguém reparasse, a gente pudesse
deixar de todo dia salvar o mundo de alguém, porque precisamos desesperadamente
salvar o nosso. E gostaríamos sinceramente de ficar fora dos holofotes. A gente
se cansa, se cansa de tudo. Tem dias que especialmente desejamos não ser os
mocinhos, e gostamos disso, dessa ausência, desse alívio da pressão externa que
sofremos, de sermos alguém responsável, meticuloso e sensato. Tem dias que
realmente gostamos de fugir dos padrões comportamentais, não queremos ter que
nos comportar em restaurantes, sorrir ao ganhar presentes, ou bancar nossa
própria loucura pagando contas absurdamente caras.
Tem sempre aquele dia que tudo parece incerto e que a gente gosta disso,
só para encarar a normalidade de um jeito diferente. Tem horas que somos assim,
e na outra hora rejeitamos tudo isso, só porque gostamos de ser eternos
paradoxos.
Meus pensamentos e suas
fantasias. Eu sou você! Você sou eu! E no final, somos a mesma coisa, e cada um
deles. Somos loucura, genialidade, erro e decepção! Somos um conjunto de coisas
agradáveis que se dão ao luxo de ser desagradável. De repente, somos uma farsa
maior que pensávamos ser. Somos qualquer coisa menos nós, menos discos
perfeitos, tocando músicas harmoniosas. Temos o direito ao ópio, ao mau gosto,
ao tétrico e ao desleal.
Não sei exatamente o que escrevo porque também sou feito de confusão e
caos. Somos feitos de reflexos que não sabem sincronizar os movimentos . Talvez
seja isso, um monte de legados que nos deixaram e que não queremos. Afinal,
heranças são quase sempre velhas casas que de nada nos servem, apenas nos
trazem recordações melancólicas de tempos já esquecidos. Eu acho que somos
farsa, e já devo ter repetido isso exaustivamente neste texto. Mas permita me
hoje exagerar das anáforas, e usar exageradamente erros comuns dos recursos de
linguagem. Hoje quero me permitir escrever “mau” só pra gozar desse direito. Não
vou reler os recados que deveriam ser esquecidos, pois não quero sempre achar sermos metade do
que somos, até sermos todo. As vezes a
gente quer apenas tomar um café e se divertir vendo os dias passarem, sem essa
obrigação de ser feliz, de sorrir a todos instante. E queremos nos dar o
direito de sermos sérios, quietos e inúteis. Com uma carta de alforria,
queremos velejar de forma torta, e termos o direito de sermos feios, contra dizentes
e incoerentes. Porque insistimos em sorrir forçadamente? Ou porque encenamos
quando tudo o que queríamos era vestir o manto negro da noite e se embriagar
por aí, pelos sonetos tortos da vida? Sem julgamentos, sem rótulos sem remédios
de tarja duvidosa. As vezes eu acho que você não é você, e que deveria jogar
fora esse ridículo cartão de visitas que você entrega. Eu já disse que eu sou
você?
Quem realmente somos? E o que é essa mentira que insistimos em contar um
para o outro? De todos os adjetivos que já usei, jamais encontrei algum tão preciso
quanto este que insisto hoje em usar.

