Dirigir por estradas sinuosas é uma escolha, não uma
obrigação. Haverão sempre as rodovias bem sinalizadas e cheias de pedágios como
primeira opção. São seguras, cheias de carros bem cuidados, mulheres de biquíni
e corpos esculturais aguardando no pódio de chegada. Sim, as grandes retas e a as conhecidas paisagens do
litoral. Uma escolha tradicional, aprovadas pelas famílias e amigos ordinários. Mas qual o verdadeiro propósito de uma viagem ordinária se o que procuro esta entre o incomum e o extraordinário?
Creio que se é alguma coisa parecido
comigo, concordará que os verdadeiros corredores e viajantes estão nessa empreitada porque se enjoaram de banhos de
champanhe e moças artificiais ao final da corrida. Muito provável, procuram
algo mais, alguma coisa entre a ultrapassagem e a certeza de curvas sinistras
logo à frente. Posso prever alguns corredores berrando em meus ouvidos,
cuspindo regras sociais e risos de escárnio sobre minhas escolhas. Mas quem
paga os pedágios, não são eles? E o maluco sou eu... dirigindo meu velho carro,
tomando a rodovia que segue para o Norte. Livre de impostos e cheia de
surpresas pelo caminho. Como não notar o excesso de sinalização de tais
estradas? Prevenindo o incauto motorista sobre seus buracos, curvas acentuadas
e pontes quebradas? Pode parecer
loucura, apenas desejo de aventuras, mas lembra-se do prêmio para as grandes
retas? Não se aprende muito com elas, tampouco o bom asfalto e as pontes bonitas. Temos
a perigosa tendência a não prestar atenção na paisagem quando corremos tão
rápido. Tudo passa despercebido, perdemos todos os detalhes que transformam em
ouro pedaços de ferro torcido. Eu
definitivamente não quero isso. Não quero diversão, não quero vias de acesso rápido,
não quero apenas o que se julga bom ou sensato para mim. Quero mais atenção às
rodovias escuras. Dirijo com faróis acesos, não se preocupe. Não sei qual o fim
leva o Norte e tenho sempre a sensação do desconhecido e do imprevisível. Isso
me anima tanto!!!! A única coisa certa, é de que esconde algo absolutamente
belo. É nisso que concentro minhas forças, e nessa certeza que confio meu livre
arbítrio. Sei que ficarei assustado depois de quebrar todas essas regras de conduta mas sei também que haverá alguma coisa lá na frente me dizendo
para relaxar, que a primeira hora antes do amanhecer é a mais escura, mas para
eu me recordar que bem próximo estará o sol e a revelação de tudo aquilo que eu acredito. Não fuja ao primeiro latido de cachorro, parece me dizer a voz que escuto, não fuja as primeiras
demonstrações de problemas nessa rodovia sem mapas, sem sinais de GPS e sem postos
de gasolina. Afinal, quem precisa dessas coisas para ser feliz? Sábias palavras dessa voz desconhecida, que me acompanha nesses dias, as quais gratamente gosto de chamar de sexto sentido.
